Lucro Presumido fica mais caro e aumenta pressão sobre empresas em 2026
Mudanças recentes na legislação elevam a base de cálculo de tributos e acendem alerta sobre insegurança jurídica


A recente alteração nas regras do regime de Lucro Presumido trouxe um novo desafio para empresas brasileiras: pagar mais imposto sem, necessariamente, ter aumentado seus lucros.
Em meio ao processo de adaptação à Reforma Tributária, a medida vai na contramão da promessa de simplificação do sistema fiscal e reforça um cenário já marcado por complexidade e instabilidade.
O que mudou na prática
Com a entrada em vigor da Lei Complementar nº 224/2025, o Lucro Presumido passou a ser tratado como um benefício fiscal. Na prática, isso resultou no aumento da base de cálculo do IRPJ e da CSLL.
Empresas com faturamento acima de R$ 5 milhões foram diretamente impactadas.
Serviços: presunção passou de 32% para 35,2%
Comércio e indústria: de 8% para 8,8%
Apesar de as alíquotas não terem sido alteradas, o aumento da base de cálculo eleva automaticamente o valor final dos tributos.
Ou seja: o contribuinte paga mais, mesmo sem mudança real no desempenho do negócio.
Mudança altera essência do regime
Tradicionalmente, o Lucro Presumido era visto como uma forma de simplificar a apuração de impostos, especialmente para empresas de médio porte.
Ao ser classificado como benefício fiscal, o regime perde essa característica e passa a ser tratado como algo passível de restrições e ajustes arrecadatórios.
Esse ponto tem gerado críticas no mercado, já que muda a lógica original do modelo.
Fim de benefício histórico
Outro impacto relevante foi a extinção do chamado bônus de adimplência fiscal, previsto na Lei nº 10.637/2002.
Esse mecanismo concedia redução de 1% na base da CSLL para empresas que mantinham regularidade fiscal por cinco anos consecutivos.
Com a nova legislação, até mesmo contribuintes em dia com suas obrigações perderam esse incentivo.
Reação do mercado e risco jurídico
Entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil e a Confederação Nacional de Serviços já se posicionaram contra as mudanças.
O principal argumento é que o aumento da carga, sem alteração na realidade econômica das empresas, pode violar princípios constitucionais.
A tendência é de aumento na judicialização.
Um sistema cada vez mais litigioso
O cenário não é novo. O Brasil já possui um dos maiores volumes de disputas tributárias do mundo.
Segundo dados do Insper, o contencioso tributário nacional soma cerca de R$ 5,69 trilhões — equivalente a 74,8% do PIB.
A nova regra tende a ampliar ainda mais esse volume.
O que as empresas devem fazer agora
Diante desse cenário, empresas precisam agir rápido:
Revisar o planejamento tributário
Avaliar a viabilidade de migração para o Lucro Real
Ajustar sistemas e processos fiscais
Monitorar possíveis discussões judiciais
Negócios com margens menores podem ser os mais afetados, já que passam a pagar imposto sobre uma base superior à sua realidade.
Um sinal de alerta
A mudança no Lucro Presumido acontece em um momento delicado, em que empresas já lidam com a transição da Reforma Tributária.
Alterações estruturais no meio desse processo aumentam a insegurança e podem gerar o efeito oposto ao desejado: mais custo, menos eficiência e maior número de disputas.