A Reforma Tributária vai aumentar seus impostos? A resposta não é tão simples quanto parece

A Reforma Tributária vai pesar mais no bolso? Entenda os impactos e por que a resposta muda conforme setor, créditos e perfil de consumo de cada empresa e família.

REFORMA TRIBUTÁRIA

8/28/2026

Tem uma pergunta que não sai da boca de empresários e consumidores nos últimos meses: no fim das contas, vou pagar mais ou menos imposto com o IBS e a CBS? Quem espera um número redondo e definitivo vai se frustrar. A verdade é que a Reforma Tributária do Consumo não tem uma resposta única, porque ela não trata todo mundo do mesmo jeito.

A contadora Tamires Barbosa, conselheira do CRCRJ, resume o problema de um jeito direto: olhar só para a alíquota do IBS e da CBS é a receita perfeita para tirar uma conclusão errada.

Por que a alíquota sozinha não conta a história toda

O erro mais comum é pegar o percentual futuro do IBS e da CBS e aplicar direto sobre o faturamento, como se isso já fosse a carga tributária real da empresa. Não é.

O novo sistema amplia a não cumulatividade, o mecanismo que permite abater créditos das aquisições permitidas por lei. Isso quer dizer que o valor que a empresa efetivamente paga depende de quanto ela debita e de quanto consegue recuperar em créditos, não apenas da alíquota nominal.

Na prática, isso separa as empresas em realidades bem diferentes. Um negócio que compra muito insumo, equipamento e serviço tributado tende a gerar mais crédito para abater. Já uma empresa cuja estrutura de custo é concentrada em mão de obra, que normalmente não gera crédito da mesma forma, sente o peso de outro jeito.

Nem toda atividade paga a mesma conta

A Reforma não trata todos os setores como iguais, e isso muda tudo. Saúde e educação, por exemplo, têm redução de alíquota de IBS e CBS nas hipóteses previstas em lei. Algumas profissões regulamentadas também entram nessa lista de tratamento diferenciado, desde que cumpram os requisitos exigidos.

Some a isso produtos com alíquota zero, outros com alíquota reduzida, atividades com regime específico e ainda o Imposto Seletivo, criado para recair sobre bens e serviços considerados nocivos à saúde ou ao meio ambiente.

Diante desse mosaico de regras, Tamires Barbosa é enfática: falar em "a Reforma vai aumentar os impostos" ou "vai baratear tudo" como regra geral ignora essas diferenças entre setores e formas de consumo.

O impacto não para no valor pago ao Fisco

Para as empresas, o efeito da mudança não se limita ao boleto do imposto. Formação de preço, margem de lucro, fluxo de caixa, negociação com fornecedores e até competitividade no mercado entram na conta.

Isso cria uma armadilha: uma empresa que perceba aumento na carga efetiva não consegue necessariamente repassar esse valor inteiro para o preço final. Dependendo da concorrência do setor, parte da diferença pode precisar ser absorvida internamente, apertando a margem e forçando revisão de custos.

Já quem souber aproveitar bem os créditos disponíveis pode encontrar o caminho inverso: espaço para reorganizar operações e cadeia de fornecedores, passando a escolher parceiros comerciais não só pelo preço, mas também pelo efeito tributário da compra.

Planejamento deixa de ser opcional

Para Tamires Barbosa, esse cenário só reforça um ponto: o empresário precisa conhecer seus próprios números. Simulações e projeções deixam de ser luxo e passam a ser ferramenta essencial para entender como o negócio vai se comportar dentro da nova sistemática, em vez de tomar decisões baseadas apenas em estimativas genéricas sobre a alíquota final dos tributos.

Quem está no Simples Nacional também precisa prestar atenção. O regime continua existindo, mas passa a conviver com IBS e CBS dentro da nova estrutura, o que pode influenciar principalmente empresas que vendem para outras pessoas jurídicas. A geração e o aproveitamento de créditos podem pesar na competitividade comercial, então ficar no Simples não dispensa a análise dos impactos da Reforma.

E o consumidor, sente isso no bolso?

Do lado do consumidor, a equação também não é uniforme. Mudanças na tributação das empresas podem, sim, chegar ao preço final, mas o repasse não é automático nem proporcional. Custo, concorrência, margem, oferta e demanda continuam determinando o preço nas prateleiras.

O novo sistema também prevê válvulas de escape para suavizar o impacto sobre certos grupos e produtos. Itens essenciais podem ter alíquota zero ou reduzida, e famílias de baixa renda contam com o cashback tributário, mecanismo de devolução de parte do que pagaram em IBS e CBS.

Ou seja: duas famílias com hábitos de consumo diferentes podem sentir a Reforma de formas completamente distintas. Quem gasta mais com itens beneficiados por tratamento tributário favorecido tende a perceber um efeito diferente de quem consome com frequência produtos sujeitos à tributação padrão ou ao Imposto Seletivo.

2026 é o ano de ajustar a rota

Segundo Tamires Barbosa, 2026 funciona como uma espécie de laboratório, um período de testes e adaptação antes da implementação completa do novo modelo, que ainda vai avançar nos próximos anos.

É nessa janela que empresas de todos os portes precisam entender seus próprios impactos, revisar estratégias e acompanhar como as mudanças vão se refletir em cada setor da economia.

No fim das contas, a Reforma Tributária não cabe numa resposta pronta sobre quem vai pagar mais ou menos. Tudo depende da atividade, da estrutura de cada empresa, dos créditos disponíveis, dos tratamentos previstos em lei e, para as famílias, do próprio perfil de consumo.

Mais do que ficar de olho na alíquota que ainda vai ser definida, o recado de Tamires Barbosa é claro: entender como o sistema funciona na prática, e se planejar para isso, é o que vai fazer diferença nesse período de transição.

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